Marshall 'Major' Taylor: o homem mais rápido do mundo

A história de Marshall "Major" Taylor deve ser conhecida e contada por todos, ciclistas e não-ciclistas. Ele viveu glórias, tragédias e provações ao longo da vida para se sagrar "o homem mais rápido do mundo".

"O campeão mundial de ciclismo, veio da maneira mais difícil, sem ódio no coração, um atleta cavalheiro honesto, corajoso e temente a Deus e com vida limpa. Uma honra à sua raça, que sempre deu o seu melhor. Partiu, mas não será esquecido." Lápide de Marshall "Major" Taylor.

É notório que o ciclismo profissional é um ambiente predominantemente branco.

Agora pense-o voltando 100 anos, nos Estados Unidos, ainda sob a segregação racial.


Foi nesse cenário em que um homem negro, de bravura e caráter enormes, neto de escravos, estabeleceu recordes desde cedo e se sagrou campeão mundial de ciclismo aos 20 anos de idade. Estamos falando de Marshall Taylor, conhecido também como "The Black Cyclone".


Seus feitos e sua história o colocam lado a lado com lendas como George Dixon, Jesse Owens e Jack Robinson, que ultrapassaram todas barreiras raciais em esportes predominantemente brancos. Suas trajetórias têm em comum a resistência. No esporte, sofreram inúmeras tentativas de detê-los por partes de outros atletas e organizações racistas. Por bem, a própria história é a encarregada de colocar os nomes dessas lendas eternamente em um pódio em que aqueles jamais subirão.


A ascensão de uma lenda.

Marshall Walter Taylor nasceu em Indianápolis em 26 de novembro de 1878, um dos oito filhos de Gilbert e Saphronia (Kelter) Taylor. Seu avô fora um escravo e seu pai lutou a Guerra Civil contra os escravistas.


Ele adquiriu o apelido de "Major" ainda garoto, fazendo truques de bicicleta do lado de fora de uma loja, vestido com um uniforme militar para atrair clientes.


Posteriormente, o dono de outra loja de bicicletas para a qual trabalhava o inscreveu no que seria a sua primeiro corrida. A intenção não era nem sequer que a finalizasse, apenas que carregasse o nome da loja ao evento. Ele não apenas completou as 10 milhas da prova, como a venceu por seis segundos de vantagem, com 13 anos.


Infelizmente, desde logo, junto com suas vitórias, veio também a discriminação dentro do esporte. Em 1895, ele conquistou um dos seus primeiros feitos mais significativos. Na corrida de 75 milhas disputada em Indianápolis, muitos dos competidores brancos se recusaram a competir ao seu lado e, os que competiram, o ameaçaram antes e durante a corrida. Ele foi o ÚNICO competidor a conseguir completar a prova.


Foi nesse período em que ele conheceu Louis Munger, um gerente de corridas e fabricante de bicicletas. Munger viu um enorme potencial em Taylor e passou a lhe dar apoio e mentoria. Munger decidiu mudar a operação de seu negócio para Worcester, Massachusetts, uma cidade muito mais tolerante e com corridas de maior nível. Assim, pretendia dar mais oportunidades para Taylor. "Eu estava em Worcester há muito pouco tempo e já percebi que não havia preconceito racial entre os ciclistas da maneira como eu havia experimentado em Indianápolis", escreveu Taylor em sua autobiografia.


Suas conquistas.


Em pouco tempo, ele mostrou que seu futuro nas pistas seria brilhante. Sua primeira corrida como profissional foi em 1896, diante de cinco mil pessoas, no Madison Square Garden. Sendo o único negro competindo, ele venceu a prova.


Essa vitória lhe rendeu a classificação para a corrida de seis dias que se daria a partir do dia seguinte. É isso mesmo que você pensou: seis dias dando voltas na pista para ver quem cobria a maior distância. Apenas metade dos ciclistas terminou a prova e o Major conseguiu a oitava posição. Esse resultado inimaginável - logo após seu aniversário de 18 anos - o catapultou no ciclismo profissional.


No circuito profissional americano de 1897, ele foi impedido de competir nas etapas que ocorreram nos Estados segregados do sul, não conseguindo pontos suficiente para ser o campeão nacional. Nos dois anos seguintes, ele acumulou sete recordes mundiais, sendo que um deles demorou 28 anos para ser batido.


O melhor estava por vir. Em 1899, ele chocou o mundo ao vencer Edmond Jacquelin no campeonato mundial de ciclismo de pista disputado no Canadá, se tornando o segundo atleta negro de todos os tempos a ganhar o título mundial em um esporte reconhecido. O primeiro havia sido o boxeador canadense George Dixon em 1891.


Em 1900, Major disputou uma corrida contra Tom Cooper, o então campeão nacional da NCAA. O evento ocorreu também no Madison Square Garden, agora diante de sessenta mil pessoas. O "Ciclone Negro" venceu a corrida.


Sua ascensão impressionante foi recentemente relembrada em um comercial da marca de bebidas Hennessy:

"Ele ganhou sua primeira corrida profissional em 1896.

Em 1901, ele era o atleta mais conhecido no mundo."


Seguindo as duas temporadas de recordes de 1899 e 1900, Taylor embargou na aventura de competir na Europa. Lá, a atmosfera era bem diferente da segregação com que vivera até então na América. Major era aclamado e reconhecido pelos fãs e pela imprensa européia.


Muitas das corridas lá aconteciam aos domingos e Taylor, devoto batista desde a morte de sua mãe em 1898, recusou-se a competir. Mas sua fama já era tanta que fez com que os organizadores europeus mudassem o calendário de corridas para dias da semana para poder acomodá-lo. Essa história inspirou a música de Otis Taylor, "He Never Raced on Sunday".


Ele derrotou todos os campeões europeus. E não é exagero: em uma das turnês, ele venceu 40 das 57 corridas de que participou, selando ainda mais seu status icônico.


Ele competiu em duas turnês europeias e correu na Austrália e Nova Zelândia. Esses eventos fizeram com que ele se tornasse um dos primeiros atletas mundialmente reconhecidos da era moderna. Numa época em que os esportes para espectadores mais populares do mundo eram corridas de cavalo e bicicleta, Taylor é considerado um dos atletas mais dominantes e famosos da época.


Taylor se aposentou do ciclismo profissional em 1910, citando idade e exaustão como os dois principais motivos.


O racismo.


Em que pesassem todas suas conquistas, nacionais e internacionais, o racismo nunca lhe deu tréguas, especialmente em seu próprio país, com as leis de Jim Crow em pleno vigor. Durante toda sua carreira, ele conviveu com ódio e ameaças. A imprensa americana era incansável em publicar charges racistas se referindo a ele de maneira desumana.


E ele não foi poupado nem mesmo nas pistas. Água gelada foi jogada nele e pregos colocados no caminho de sua bicicleta por membros de equipes rivais. A exemplo, em setembro de 1897, depois de uma corrida de uma milha na qual Taylor ficou em segundo, o terceiro colocado, William Becker, o jogou no chão e o sufocou até que ficasse desacordado, a polícia foi obrigada a interferir. Já em 1904, na Austrália, ele foi derrubado propositalmente durante a corrida por Yvonne Lawson, ficando inconsciente na pista até ser levado ao hospital.


Dificuldades no final da vida.


Após sua carreira de ciclista, ele acumulou uma boa fortuna. Se candidatou a uma vaga e foi negado na faculdade de engenharia por não ter completo o "ensino médio". Passou a investir em negócios e se tornou empresário.


Entretanto, anos depois, sua situação começou a ficar mais e mais difícil. Ele fez maus investimentos - incluindo a autobiografia auto-publicada - e suas economias foram ainda mais devastadas pelo crash da bolsa de 1929, praticamente apagando a sua fortuna dos dias de vitórias. Sua saúde declinou e seu casamento com Daisy Victoria Morris desmoronou. Passou a viver da venda de seu livro, feita por ele porta a porta na cidade, que lhe rendia o mínimo para comer.


Ele morreu em 21 de junho de 1932, sozinho e praticamente esquecido, seu corpo não foi sequer reclamado no necrotério. Houve apenas um breve obituário no jornal afro-americano The Chicago Defender.


O corpo de Taylor ficou por anos enterrado como indigente em Mount Glenwood Memory Gardens, perto de Chicago. Em 1948, um grupo de ex-astros da corrida o resgatou, com assistência financeira de Frank Schwinn, da Schwinn Bicycle Company, no Jardim do Bom Pastor do cemitério. Agora também há um memorial fora da Biblioteca Pública de Worcester.


O legado.


Marshall Taylor enfrentou adversidades e vivenciou altos e baixos do momento em que pisou na terra até o momento em que saiu dela, de forma que pouquíssimos seriam capazes de resistir. Ele suportou a hostilidade e perseverou contra todas as probabilidades, abrindo caminho para gerações. É uma vida e uma causa que valem ser lembradas e celebradas.

Sua história é uma prova do poder da determinação e do caráter. Ele inspirou inúmeros atletas em todo o mundo e dezenas de clubes de ciclismo em todo o país carregam seu nome.


Por fim, gostaria de acrescentar que, ainda que a sua autobiografia não tenha sido um sucesso à época; eu digo que ela está lado a lado com suas maiores conquistas:

“A vida é muito curta para mantermos amargura em nossos corações.”; “Objetivamente não existem realizações mentais, físicas ou morais muito elevadas para o afro-americano alcançar se lhe for concedida uma oportunidade justa e igualitária."

Tenho certeza que a vida não é justa, mas são lições como essa que dão razão a ela. Pensar que vivemos no mesmo mundo em que gigantes como Taylor deixaram sua marca nos dá forças e esperanças para enfrentarmos injustiças e buscar uma realidade melhor, mais igualitária e fraterna.


Angelo Trois.


Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_de_Jim_Crow

https://www.nytimes.com/interactive/2019/obituaries/major-taylor-overlooked.html

https://www.youtube.com/watch?v=UHOdqo9zicQ

https://www.youtube.com/watch?v=oJt_SDm_s7A

https://www.trekbikes.com/us/en_US/majortaylor/

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